Quase infinito

ela levou o meu casaco
como quem rouba um pedaço da noite

e eu deixei...

havia alguma coisa dolorosamente bela
em congelar ao lado dela
porque o frio parecia menos perigoso
do que quebrar o feitiço daquele instante

andamos colados
como duas almas que já haviam sonhado
mesmo sem saber

enquanto a cidade afundava devagar
em luzes molhadas
e vozes distantes

meu mundo era apenas o labirinto
daquela delicadeza absurda:
o cabelo dela balançando ao vento

os olhos dela —
havia silêncio neles
não um silêncio vazio
mas um silêncio lento
quase infinito
que faz o mundo girar devagar

ela sussurrou ter medo
de pessoas intensas

como se amar demais
fosse o começo exato 
de uma despedida

então guardei meus sentimentos
e a vontade de segurá-la pelo rosto
e dizer que algumas noites
mereciam durar para sempre

sem dizer
que desde aquela noite
o meu casaco ainda cheira a ela

e talvez
o meu coração também

Patrick Pinheiro
22/05/2026

Entre Sombras


No quarto quieto
o silêncio pesa nas paredes.
Há passos que nunca dei
ecoando dentro de mim.

Ecos de dias impossíveis,
como se outra vida tivesse passado
por caminhos que nunca percorri.

No espelho da noite
procuro o rosto que fui ontem,
mas encontro apenas um vulto
feito de ausência e silêncio.

Talvez viver seja isto —
correr atrás de alguma luz
sem saber se ela existe
ou se nós que a inventamos.

E ainda assim seguimos.

Entre o que resta
e o que nunca foi,
carrego no peito
saudades de tempos que nunca existiram.

Patrick Pinheiro
12/03/2026